28 de fevereiro de 2011

falta um pedaço

Ela pensava que era só mudar tudo, de repente, que as coisas ficariam ajeitadas. Trocou de emprego, teve que reorganizar a vida, mudou a rotina, passou a ter raros momentos de tranquilidade. A cabeça agora estava quase que totalmente ocupada. Quase. Faltava um pedaço.

O espaço restante não era qualquer um. Era dos mais difíceis de preencher. Ao longo da vida ela abriu mão desse pedaço para preencher os outros. Escolheu os estudos, a carreira, os amigos. Conheceu o mundo e o mundo a conheceu. Conheceu a si mesma e viu que não podia ficar sozinha. O cantinho fora ocupado algumas vezes nesse período, mas sempre por andarilhos que não ficavam por muito tempo. Chegavam, passavam uma temporada, enjoavam - ou ela enjoava - e iam embora. Alguns entravam sem bater, outros saíam sem ao menos se despedir. Encontros de inícios distintos, e finais idênticos.

Agora ela se senta na cama, em seu quarto, e tenta entender se chegou mais um visitante. Tem quase certeza de que sim. Às vezes, se pergunta se ele pede para entrar, em outras não tem dúvidas de que ele quer só uma conversa, sem passar pela porta. Ela quer que ele entre. Ele não sabe se quer, não sabe que ela quer. Ela está feliz em um dia, triste no outro, indecisa quase sempre. Sabe que quer continuar mudando, mas não parece querer que aquele espaço seja ocupado por outros andarilhos além daquele que está ali, à sua frente. Se ocupa de todas as formas, procura distração em cada carro que passa na rua, modela a vida da forma que prefere, como sempre fez. Mas algo permanece fora de seu controle. Falta um pedaço.


22 de fevereiro de 2011

and life has a funny way...

Sempre me identifiquei com essa música da Alanis... principalmente com os trechos finais, em que ela fala de como a vida tem mania de nos dar tapas na cara. Quando tudo parece estar na mais perfeita harmonia, é bom se preparar porque alguma coisa vai, com certeza, nos colocar para baixo. Mas a melhor parte é poder ter certeza de que quando tudo parece dar errado, ou até mesmo naqueles dias em que tudo parece estar bem mas o desânimo começa a tomar conta, algo sempre vem para mostrar o quanto vale a pena passar pelas "pedras no caminho".

Eu tenho exercitado o hábito de agradecer por tudo. Até mesmo quando todos os palavrões que um dia já aprendi vêm à cabeça, tento respirar fundo e agradecer. Simples assim. Não é fácil, mas faz a diferença.

Hoje eu tomei mais um "tapa na cara" da vida. Totalmente inesperado, mas um dos melhores até hoje. Ontem escrevi o quanto sentia falta de pegar um mapa e sair perambulando por ruas desconhecidas, e hoje descobri que conhecerei, daqui a 10 dias, as ladeiras de duas cidades que sempre desejei visitar. Sem contar o banho de mar que estava previsto pra maio e vai ser adiantado. Pra lavar a alma e começar o ano de vez nessa vida cheia de ironias.

Well life has a funny way of sneaking up on you

When you think everything's okay and everything's going right
And life has a funny way of helping you out when
You think everything's gone wrong and everthing blows up in your face




um mapa na mão...

Que saudades de pegar um mapa e sair perambulando por uma cidade desconhecia, observando cada esquina, prestando atenção em cada rosto diferente que nunca vi e, provavelmente, nunca mais verei. Morar em uma "obra de arte", como dizem por aí, não é uma tarefa tão fácil, mas nos deixa mal acosumados depois que aprendemos a encontrar os endereços simetricamente distribuídos. Nem precisa ir muito longe; é só experimentar dar um pulinho ali em Goiânia pra sentir o gosto de andar por uma "cidade de verdade", como eu costumo dizer.

Não é que eu não goste de Brasília - muito pelo contrário. Cidade com o céu mais lindo de todo o mundo, não tenho dúvidas. Céu que se reflete no Lago Paranoá e, nas tardes de domingo (sim, especialmente as de domingo), proporciona aos nossos olhos o pôr-do-sol mais deslumbrante, visto da Ermida Dom Bosco. Quem não gosta dessa cidade não a conhece, isso é fato.

Amo minha casa, mas como boa andarilha, preciso sempre partir. Sempre volto para casa, mas preciso partir. Há um ano eu desembarcava no Brasil, voltando de duas das cidades mais encantadoras que já pude pisar: Santiago e Buenos Aires. Na primeira, um povo carinhoso que cativa de uma forma inigualável, na segunda, clima de sedução a cada esquina. Não sei se o que me impressionou mais foi o clima bucólico e ao mesmo tempo de metrópole da capital chilena que nessa época do ano só fica escura após as 21h, ou a beleza e loucura que se misturam na linda Buenos Aires.

Foi nessas duas cidades que, depois de muito tempo, pude relembrar o que é o prazer de descobrir o desconhecido, usando só um mapa e disposição pra sair caminhando... e de quebra, com o gostinho de ter que entender uma língua diferente. Quem me dera poder descobrir uma rua como a Florida todo mês, toda semana...


1 de fevereiro de 2011

Meio Almodóvar

Ah, Lenine... "eu morro de saudades do que era pra viver"

Foi só um ensaio, foi só um insight
Durou muito pouco, doeu muito mais
Foi trailer de filme, ensaio de orquestra
Foi jogo suspenso no auge da festa
Foi curto e intenso
Canção de Caymmi
Foi meio Almodóvar, foi meio Fellini
Foi como um cometa no céu da cidade
Foi breve promessa de felicidade

Eu morro de saudades do que era pra viver
E vivo da viagem de reencontrar você
Meus olhos do passado num futuro que nem sei
De tantas outras vidas, mil pontos de partida
E todos os detalhes do que não aconteceu
Repetem o roteiro pra mostrar você e eu
O filme recomeça e nunca chega até o fim
E nessa nova vida não tem a despedida...




Não encontrei a versão do Lenine cantando, só do Juca Novaes (linda de qualquer forma). Se alguém tiver me manda? :)